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    CAPÍTULO XII – Gênese mosaica [parte 1]

    • – OS SEIS DIAS

    A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo

    OS SEIS DIAS

    1. CAPÍTULO I — 1. No princípio Deus criou o céu e a terra. – 2. A terra era uniforme e toda nua; as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus passeava sobre as águas. – 3. Então Deus disse: Que a luz seja feita e a luz foi feita. – 4. Deus viu que a luz era boa, e separa a luz das trevas. – 5. Ele deu à luz o nome de dia e às trevas o nome de noite, e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia.

    6. Deus disse também: Que o firmamento seja feito no meio das águas, e que ele separe as águas das águas. – 7. E Deus fez o firmamento; e separou as águas que estavam sob o firmamento das que estavam acima do firmamento. E assim se fez. – 8. E Deus deu ao firmamento o nome de céu; da tarde e da manhã se fez o segundo dia.

    9. Disse Deus ainda: Que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça. E assim se fez. – 10. Deus deu ao elemento árido o nome de terra, e chamou de mar todas as águas recolhidas. E viu que isso era bom. – 11. Deus disse mais: Que a terra produza a erva verde que traz a semente e árvores frutíferas que deem frutos cada qual segundo sua espécie, e que contenham suas sementes em si mesmas para se reproduzir na terra. E assim se fez. – 12. A terra então produziu a erva verde que trazia a semente conforme a sua espécie, e árvores frutíferas que continham suas sementes em si mesmas, cada qual segundo sua espécie. E Deus viu que isso era bom. – 13. E da tarde e da manhã se fez o terceiro dia.

    14. Deus disse assim: Que haja corpos luminosos no firmamento do céu, a fim de que eles separem o dia da noite, e sirvam de sinais para marcar o tempo e as estações, os dias e os anos. – 15. Que eles brilhem no firmamento do céu e que iluminem a terra. E assim se fez. – 16. Deus então fez dois grandes corpos luminosos, um maior para presidir ao dia, o outro menor para presidir à noite; também fez as estrelas. – 17. E os pôs no firmamento do céu para brilhar sobre a terra. – 18. Para presidir ao dia e à noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom. – 19. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.

    20. Deus disse ainda: Que as águas produzam animais vivos que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra abaixo do firmamento do céu. – 21. Então Deus criou os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, que as águas produziram cada qual segundo sua espécie, e criou também todos os pássaros segundo sua espécie. Ele viu que isso era bom. – 22. E os abençoou dizendo: Cresçam e se multipliquem, e encham as águas do mar; e que os pássaros se multipliquem sobre a terra. – 23. E da tarde e da manhã se fez o quinto dia.

    24. Deus também disse: Que a terra produza animais vivos cada qual segundo sua espécie, os animais domésticos, os répteis e as feras selvagens da terra em suas diferentes espécies. E assim se fez. – 25. Deus então fez as feras selvagens da terra segundo suas espécies, os animais domésticos e todos os répteis, cada qual segundo sua espécie. E Deus viu que isso era bom.

    26. Em seguida, ele disse: Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança, e que ele comande os peixes do mar, os pássaros do céu, as feras, em toda a terra e a todos os répteis que se movem sobre a terra. – 27. Deus assim criou o homem à sua imagem, e o criou à imagem de Deus, e o criou macho e fêmea. – 28. Deus os abençoou e lhes disse: Cresçam e se multipliquem, encham a terra e sujeitem-na a vocês, dominem sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. – 29. Disse Deus ainda: Eu lhes dei todas as ervas que trazem sua semente à terra e todas as árvores que contém em si mesmas suas sementes cada qual segundo sua espécie, a fim de que lhes sirvam de alimento; – 30. E a todos os animais da terra, a todos os pássaros do céu, a tudo o que se move sobre a Terra e que é vivo e animado, a fim de que eles tenham de que se alimentar. E assim se fez. – 31. Deus viu todas as coisas que havia feito; e elas eram muito boas. – 32. E da tarde e da manhã se fez o sexto dia.

    CAPÍTULO II — 1. O céu e a terra ficaram então concluídos com todos os seus ornamentos. – 2. Deus concluiu no sétimo dia toda a obra que havia feito e repousou nesse sétimo dia, após ter concluído todas as suas obras. – 3. Ele abençoou o sétimo dia e o santificou, porque ele havia cessado nesse dia de produzir todas as obras que tinha criado. – 4. Essa é a origem do céu e da terra, e foi assim que eles foram criados no dia que o Senhor fez um e outro. – 5. E que criou todas as plantas dos campos antes que houvessem saído da terra, e todas as ervas dos campos antes que houvessem germinado. Porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para lavrá-la; – 6. Porém, da terra se elevava uma fonte que lhe regava toda a superfície.

    7. O Senhor Deus forma então o homem do barro da terra, e lhe espalhou sobre rosto dele um sopro de vida, e o homem se tornou vivente e animado.

    2. Após as explicações contidas nos capítulos anteriores sobre a origem e a constituição do Universo, conforme os dados fornecidos pela ciência quanto à parte material, e pelo Espiritismo quanto à parte espiritual, seria útil colocá-las em paralelo o próprio texto da Gênesis de Moisés, a fim de que cada um pudesse fazer uma comparação e julgar com conhecimento de causa; algumas explicações complementares serão suficientes para fazer compreender as partes que precisam de esclarecimentos especiais.

    3. Sobre alguns pontos, há certamente uma notável concordância entre a Gênesis de Moisés e a doutrina científica; mas seria erro acreditar que basta substituir os seis dias de vinte e quatro horas da criação, pelos seis períodos indeterminados para encontrar uma analogia completa; seria um erro maior ainda acreditarmos que — salvo o sentido alegórico de algumas palavras — a Gênesis e a ciência caminham passo a passo, sendo uma apenas a simples confirmação da outra.

    4. Notamos de início que, assim como já foi dito (Cap. VII, item 14), o número de seis períodos geológicos é arbitrário, pois, conta-se mais de vinte e cinco formações bem caracterizadas. Esse número marca apenas as grandes fases gerais; ele só foi adotado, a princípio, para retornar, o máximo possível, no texto bíblico a uma época — pouco distante, aliás — quando se acreditava que a ciência devia ser controlada pela Bíblia. Essa a razão por que os autores da maior parte das teorias cosmogônicas, visando se fazer mais facilmente aceitável, se esforçaram para se colocar em acordo com o texto sagrado. Quando a ciência se apoiou no método experimental, ela sentiu-se mais forte e se emancipou; hoje, é a Bíblia que é controlada pela ciência.
    De outra forma, a geologia — não tomando por ponto de partida senão a formação dos terrenos graníticos, na contagem de seus períodos — não abrange o estado primitivo da Terra. Tampouco ela se ocupa com o Sol, com a Lua e com as estrelas, nem com o conjunto do Universo — que pertencem à astronomia. Para enquadrar tudo na Gênesis, convém então acrescentarmos um primeiro período abrangendo essa ordem de fenômenos, ao qual se poderia chamar período astronômico. Além disso, o período diluviano não é considerado por todos os geólogos como formando um período distinto, mas como um fato transitório e passageiro, que não mudou sensivelmente o estado climático do globo, nem marcou uma fase nova para as espécies vegetais e animais, pois, com poucas exceções, as mesmas espécies se encontram antes e depois do dilúvio. Podemos então fazer abstração desse período sem nos desviarmos da verdade.

    5. A tabela comparativa a seguir, no qual estão resumidos os fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, permite considerar o conjunto e julgar as relações e as diferenças existentes entre elas e a Gênesis bíblica:

    CIÊNCIA / GÊNESIS

    CIÊNCIAGÊNESIS
    I – PERÍODO ASTRONÔMICO:
    Aglomeração da matéria cósmica universal em um ponto do espaço numa nebulosa que, pela condensação da matéria em diversos pontos, deu origem às estrelas, ao Sol, à Terra, à Lua e a todos os planetas.
    Estado primitivo fluídico e incandescente da Terra. – Atmosfera imensa carregada de toda a água em vapor e de todas as matérias volatilizáveis
    1º DIA:
    O céu e a terra. – A luz.
    II – PERÍODO PRIMÁRIO:
    Endurecimento da superfície da Terra pelo resfriamento; formação das camadas graníticas. – Atmosfera espessa e ardente, impenetrável aos raios solares. – Precipitação gradual da água e das matérias sólidas volatilizadas no ar. – Ausência completa de vida orgânica.
    2º DIA:
    O Firmamento. – Separação das águas que estão acima do firmamento daquelas que estão debaixo.
    III – PERÍODO DE TRANSIÇÃO:
    As águas cobrem toda a superfície do globo. – Primeiros depósitos de sedimentos formados pelas águas. – Calor úmido. – O Sol começa a atravessar a atmosfera brumosa. – Primeiros seres organizados da mais rudimentar constituição. – Liquens, musgos, fetos, licopódios, plantas herbáceas. Vegetação colossal. – Primeiros animais marinhos: zoófitos, polipeiros, crustáceos. – Depósitos betuminosos.
    3º DIA:
    As águas que estão debaixo do firmamento se reúnem; o elemento árido aparece. – A terra e os mares. — As plantas.
    IV – PERÍODO SECUNDÁRIO:
    Superfície da Terra pouco acidentada; águas pouco profundas e pantanosas. Temperatura menos ardente; atmosfera mais depurada. Consideráveis depósitos de calcários pelas águas. – Vegetação menos colossal; novas espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. –Peixes; cetáceos; animais com conchas; grandes répteis aquáticos e anfíbios.
    4º DIA:
    O Sol, a Lua e as estrelas.
    V – PERÍODO TERCIÁRIO:
    Grandes soerguimentos da crosta sólida; formação dos continentes. Retirada das águas para os lugares baixos; formação dos mares. –Atmosfera depurada; temperatura atual produzida pelo calor solar. –Animais terrestres gigantescos. Vegetais e animais da atualidade. Pássaros.
    5º DIA:
    Os peixes e os pássaros.
    VI – PERÍODO QUATERNÁRIO OU PÓS-DILUVIANO:
    Terrenos de aluvião. – Vegetais e animais da atualidade. – O homem.
    6º DIA:
    Os animais terrestres. – O homem.

    6. Um primeiro fato que ressalta desse quadro comparativo é que a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa a cada um dos seis períodos geológicos, como muitos supõem. A concordância mais notável é a da sucessão dos seres orgânicos, que é quase a mesma, e no aparecimento do homem por último; mas este é um fato importante.
    Há igualmente coincidência, não quanto à ordem numérica dos períodos, mas quanto ao fato em si na passagem em que diz que, no terceiro dia “as águas que estão debaixo do céu se reuniram em um só lugar e o elemento árido apareceu”. É a expressão do que ocorreu no período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram a descoberto os continentes e repeliram as águas que formaram os mares. Foi somente a partir daí que apareceram os animais terrestres, segundo a geologia e segundo Moisés.

    7. Quando Moises diz que a criação foi feita em seis dias, queria ele falar de dias de vinte e quatro horas, ou teria empregado essa palavra no sentido de: um período de tempo? A primeira hipótese é a única admissível se nos atermos ao mesmo texto; primeiramente porque este é o sentido próprio da palavra hebraica ïôm, traduzida por dia; depois a especificação de tarde e de manhã — que limitam cada um dos seis dias — faz tudo supor que ele queria falar de dias regulares. Não se pode conceber qualquer dúvida a tal respeito, quando diz no versículo 5: “Ele deu à luz o nome de dia e às trevas dá o nome de noite; e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia”. Isso obviamente não pode se aplicar senão ao dia de vinte e quatro horas, dividido pela luz e pelas trevas. O sentido se torna ainda mais preciso quando ele diz no versículo 17, falando do Sol, da Lua e das estrelas: “Ele as colocou no firmamento do céu para elas brilharem sobre a terra; para presidirem o dia e a noite, e para separarem a luz das trevas. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.”
    Aliás, tudo na criação era miraculoso e, desde que se entre pela via dos milagres, podemos perfeitamente crer que a Terra foi feita em seis vezes vinte e quatro horas, sobretudo quando se ignora as primeiras leis naturais. Essa crença foi muito compartilhada por todos os povos civilizados, até o momento em que a geologia surgiu, com as provas na mão, demonstrando a impossibilidade dessa crença.

    8. Um dos pontos que têm sido mais criticados na Gênese é o da criação do Sol depois da luz. Tentaram explicá-lo, até mesmo com os dados fornecidos pela geologia, dizendo que, nos primeiros tempos de sua formação, a atmosfera terrestre — sendo carregada de vapores densos e opacos — não permitia que se visse o Sol, que, assim, efetivamente não existia para a Terra. Talvez essa explicação fosse admissível se naquela época já houvesse habitantes para julgar a presença ou a ausência do Sol; ora, segundo o próprio Moisés, somente havia plantas, que, contudo, não poderiam crescer e se multiplicar sem a ação do calor solar.
    Portanto, há evidentemente um anacronismo na ordem que Moisés assinala para a criação do Sol; mas — involuntariamente ou não — ele não cometeu um erro ao dizer que a luz precedeu o Sol.
    O Sol não é o princípio da luz universal, mas uma concentração do elemento luminoso em um ponto, dita de outra maneira, do fluido que, em dadas circunstâncias, adquire as propriedades luminosas. Esse fluido — que é a causa — havia necessariamente de existir antes do Sol — que é apenas um efeito. O Sol é causa para a luz que ele irradia, mas ele é efeito com relação à luz que ele recebeu.
    Num quarto escuro, uma vela acesa é um pequeno sol. O que é que se fez para se acender a vela? Desenvolveu-se a propriedade luminescente do fluido luminoso e concentrou-se esse fluido num ponto; a vela é a causa da luz espalhada pelo quarto, mas se o princípio luminoso não existisse antes da vela, esta não poderia ter sido acesa.
    É o mesmo caso do Sol. O erro provém da ideia falsa que se tem desde longo tempo de que o Universo inteiro começou com a Terra, e então não se compreende que o Sol pudesse ser criado depois da luz. Sabemos atualmente que antes do nosso Sol e nossa Terra já existiam milhares de sóis e terras, que consequentemente já desfrutavam da luz. Portanto, a afirmação de Moisés é perfeitamente exata em princípio: ela é falsa naquilo que faz crer que a Terra tenha sido criada antes do Sol; estando sujeita ao Sol pelo seu movimento de translação, a Terra teve de ser formada depois dele: isso é o que Moisés não podia saber, pois ignorava a lei de gravidade.
    Essa mesma ideia se encontra na Gênese dos antigos persas. No primeiro capítulo do Vendidad¹²², narrando a origem do mundo, Ormuzd¹²³ diz: “Eu criei a luz que foi iluminar o Sol, a Lua e as estrelas.” (Dicionário de Mitologia Universal). A forma aqui é seguramente mais clara e mais científica do que em Moisés, e não precisa de comentários.

    9. Evidentemente, Moisés compartilhava das mais primitivas crenças sobre a cosmogonia. Como os homens do seu tempo, ele acreditava na solidez da abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas. Essa ideia é expressa sem alegoria e nem ambiguidade nessa passagem (versículos 6 e seguintes): “Deus disse: Que o firmamento seja feito no meio das águas e que se separe as águas das águas. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento.” (Veja o cap. V, Antigos e modernos sistemas do mundo, itens 3, 4 e 5).
    Uma antiga crença considerava a água como o princípio, o elemento gerador primitivo; também Moisés não fala da criação das águas, que aparentemente já existiam. “As trevas cobriam o abismo”, quer dizer, as profundezas do espaço que a imaginação representava vagamente ocupada pelas águas e em trevas antes da criação da luz; eis aí por que Moisés diz: “O Espírito de Deus passeava (ou plainava) sobre as águas”. A Terra sendo supostamente formada no meio das águas, era preciso isolá-la; supôs-se então que Deus teria feito o firmamento, abóbada sólida que separava as águas de cima das que estavam sobre a Terra.
    Para se compreender certas partes da Gênese, é preciso necessariamente se colocar no ponto de vista das ideias cosmogônicas da época em que ela reflete.

    10. Desde os progressos da física e da astronomia, uma doutrina como essa não é sustentável.¹²⁴ Entretanto, Moisés atribui aquelas palavras ao próprio Deus; ora, visto que elas exprimem um fato notadamente falso, de duas coisas uma: ou Deus se enganou quanto à narrativa que fez da sua obra, ou essa narrativa não é uma revelação divina. A primeira suposição não sendo admissível, é preciso concluir que Moisés exprimiu suas próprias ideias. (cap. I, item 3).

    11. Moisés está mais com a verdade quando diz que Deus formou o homem com o barro da terra.¹²⁵ A ciência nos mostra, de fato (Cap. X) que o corpo do homem é composto de elementos tomados da matéria inorgânica — por outras palavras, do barro da terra.
    A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria, aparentemente infantil, se for tomada literalmente, mas profunda quanto ao sentido. Essa alegoria tem por objetivo mostrar que a mulher é da mesma natureza que o homem, por isso, sua semelhante perante Deus, e não uma criatura à parte feita para ser escravizada nem tratada como hilota¹²⁶. Saída da sua própria carne, a imagem da igualdade é bem mais expressiva do que se ela tivesse sido formada separadamente do mesmo barro; isso diz ao homem que ela é sua semelhante, e não sua serva, que ele deve amá-la como parte de si mesmo.

    12. Para Espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, incapazes de apreender o conjunto e de conceber o infinito, essa criação miraculosa e instantânea tinha qualquer coisa de fantástico que feria a imaginação. O quadro do Universo tirado do nada em alguns dias, por um único ato da vontade criadora, era para eles o sinal mais evidente do poder de Deus. De fato, que pintura mais sublime e mais poética desse poder do que estas palavras: “Deus disse: Que a luz se faça e a luz foi feita!”. Deus criando o Universo pelo cumprimento lento e gradual das leis da natureza teria lhes parecido menor e menos poderoso; para eles, fazia-se necessário qualquer coisa de maravilhoso que saísse das vias comuns, do contrário eles teriam dito que Deus não seria mais hábil do que os homens. Uma teoria científica e racional da criação os deixaria frios e indiferentes.
    Em suma, não rejeitemos a Gênesis bíblica; ao contrário, vamos estudá-la como estudamos a história da infância dos povos. Trata-se de uma epopeia rica em alegorias a qual devemos procurar o sentido oculto; que precisamos comentar e explicar com a ajuda das luzes da razão e da ciência. Tudo nela fazendo ressaltar a beleza poética e os ensinamentos velados sob a forma imaginosa, faz-se preciso demonstrar francamente os erros, no próprio interesse da religião. Nós a respeitaremos melhor quando esses erros não forem mais impostos pela fé como verdades, e Deus parecerá maior e mais poderoso quando seu nome não for misturado com fatos controversos.


    Notas de Rodapé

    122 Vendidad (Vendedad em francês): um dos livros que compõem o Avesta, os textos sagrados do Zoroastrismo (religião da antiga Pérsia cujo profeta maior é Zaratustra, também conhecido como Zoroastro) — N. T.

    123 Ormuzd (também chamado de Aúra-Masda ou simplesmente Ormuz): é o deus do bem

    124 Por mais grosseiro que seja o erro de uma crença como essa, ainda se mima como ela as crianças de nossos dias como se essa crença fosse uma verdade sagrada. Não é senão tremendo dela que os educadores ousam arriscar uma tímida interpretação. Como querem que isso mais tarde não faça incrédulos?

    125 A palavra hebraica haadam, homem, do qual fez Adão (Adam), e o termo haadama, terra, têm

    126 Hilota era um tipo de servo na Grécia Antiga que, diferentemente dos escravos, era propriedade do Estado, que administrava a produção econômica. — N. T.

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