
Dando sequência à nossa série de estudos aprofundados sobre O Evangelho Segundo o Espiritismo, chegamos a um dos capítulos mais densos, transformadores e, sobretudo, consoladores de toda a obra: o Capítulo V, intitulado “Bem-aventurados os aflitos”.
Este post fará um mergulho analítico nas causas do nosso sofrimento e nas instruções dos Espíritos sobre como enfrentar as tribulações da vida.
1. A Justiça das Aflições: Por Que Sofremos?
A promessa de Jesus (“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”) pareceria um contrassenso ou um engodo se não houvesse a certeza de uma vida futura. Sem essa perspectiva, como explicar que homens virtuosos sofram enquanto os maus prosperam? Kardec estabelece uma premissa lógica fundamental: desde o momento em que admitimos Deus, devemos concebê-lo com infinitas perfeições; ele deve ser todo poder, toda justiça e toda bondade. Logo, se Deus é justo, a causa das nossas aflições também deve ser justa.
O Espiritismo divide essas causas em duas categorias principais:
Causas Atuais das Aflições
Muitos dos nossos males são a consequência natural do nosso próprio caráter e conduta nesta vida. Quantos se arruínam por falta de ordem, por ambição desmedida, por imprevidência ou por uniões infelizes baseadas apenas em interesses materiais? Quantas doenças derivam de excessos?. Se interrogarmos friamente nossas consciências, veremos que, em grande número de casos, o homem é o artífice de seus próprios infortúnios. Antes de culparmos a “má sorte” ou a Providência, devemos olhar para a nossa própria incúria.
Causas Anteriores das Aflições
Mas o que dizer dos males para os quais o homem não contribuiu nesta vida? Acidentes fatais, enfermidades de nascença (como deformidades físicas ou mentais), crianças que morrem em tenra idade e só conhecem o sofrimento. Se a causa não está na vida atual, e sabendo que todo efeito tem uma causa, ela deve ser anterior a esta vida, ou seja, pertence a uma existência precedente. Pela lei da reencarnação, compreendemos que não há sofrimento imerecido: muitas vezes, a aflição atual é a consequência de uma falta do passado (a lei de talião). O orgulhoso pode renascer em condição humilhante, e o avaro pode experimentar a miséria.
2. A Bênção do Esquecimento do Passado
Muitos questionam: como posso me arrepender e expiar uma falta se não me lembro do que fiz? Kardec explica que o esquecimento do passado é uma necessidade e uma bênção divina. Se lembrássemos de nossas faltas ou inimizades passadas, isso poderia nos humilhar profundamente, exaltar nosso orgulho ou reavivar antigos ódios, perturbando seriamente as relações sociais.
Deus nos dá o que é estritamente necessário para o nosso progresso: a voz da consciência e as nossas tendências instintivas. Os nossos defeitos atuais são os resquícios das imperfeições que trouxemos do passado, indicando exatamente o que precisamos corrigir hoje. Além disso, o esquecimento é apenas para a vida corpórea; na vida espiritual, o Espírito recobra essa memória.
3. O Suicídio, a Loucura e a Melancolia
Este capítulo traz uma análise psicológica profunda sobre a dor extrema. A calma e a resignação, provenientes da fé na vida futura, são apontadas como o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.
Aquele que foca apenas no presente se desespera diante das perdas, pois vê a morte como o fim de tudo e o suicídio como um alívio lógico para suas misérias. A incredulidade e as ideias materialistas são apontadas como os maiores incitantes ao suicídio, produzindo covardia moral. O Espiritismo, ao provar a continuidade da vida e ao trazer o testemunho infeliz dos próprios suicidas, demonstra que tentar fugir da dor através do suicídio apenas lança a alma em tormentos ainda piores e mais longos.
O capítulo também aborda a melancolia, aquela vaga tristeza que às vezes se apodera do coração, fazendo a vida parecer amarga. Os Espíritos explicam que isso ocorre quando a alma, aspirando à liberdade, sente-se esgotada na prisão do corpo físico. A recomendação é resistir com energia a esse desânimo e cumprir a missão terrena com coragem.
4. Como Devemos Sofrer: O Bem e o Mal Sofrer
Jesus disse “Bem-aventurados os aflitos”, mas os Espíritos nos alertam: nem todos os que sofrem são bem-aventurados, pois é preciso saber sofrer.
A vida é comparada a uma dívida. Pagar nossas faltas através do sofrimento paciente nos liberta. No entanto, se o homem sofre murmurando, acusando Deus de injustiça e se revoltando, ele não perde apenas o mérito da prova, mas contrai uma nova dívida. É como um devedor que, ao pagar uma quantia, tomasse um novo empréstimo no mesmo momento. Devemos enfrentar as amarguras da vida como bons soldados, sabendo que Deus não coloca um fardo pesado em ombros fracos. A verdadeira infelicidade não é a dor passageira, mas sim a alegria fútil, a vaidade e os vícios que atordoam a consciência e trazem consequências eternas funestas.
5. A Visão Espírita Sobre a Morte de Entes Queridos
Uma das maiores dores humanas é a perda de entes queridos, especialmente em mortes prematuras. O capítulo nos desafia a elevar a visão acima da matéria. Frequentemente, a morte prematura é um grande benefício que Deus concede ao Espírito, preservando-o das misérias da vida ou das seduções que poderiam tê-lo arrastado à perdição.
Quando lamentamos o fim de uma vida “cheia de esperanças”, estamos pensando apenas no sucesso material e esquecendo que essa pessoa poderia ter tido um futuro cheio de amarguras morais. As mães são consoladas com a certeza de que seus filhos amados continuam vivos, presentes em espírito, e que a dor excessiva e revoltada dos que ficam na Terra entristece esses Espíritos libertos.
6. O Verdadeiro Cilício e a Nossa Ação Perante a Dor Alheia
Nas tradições religiosas antigas, era comum o uso do cilício (tortura física voluntária) para agradar a Deus. O Espiritismo é categórico ao afirmar que enfraquecer o corpo com privações inúteis é transgredir a lei de Deus. O verdadeiro cilício consiste na caridade pelo sacrifício: passar frio para aquecer alguém, cuidar de feridas alheias, martirizar o próprio egoísmo e orgulho, e suportar injúrias com resignação.
Uma questão ética muito importante também é abordada: Se o sofrimento do meu próximo é uma expiação ou prova planejada por Deus, eu devo cruzar os braços e deixá-lo sofrer? A resposta é um retumbante NÃO. Nós nunca sabemos até que ponto Deus determinou a prova de alguém. Talvez, nós mesmos fomos colocados no caminho dessa pessoa não como carrascos, mas como o bálsamo de consolação. Se pudermos cessar o mal e a dor de alguém, devemos fazê-lo, pois é uma prova da nossa própria caridade.
Por fim, o capítulo condena a eutanásia (“abreviar a vida do doente sem esperança de cura”). Ninguém tem o direito de prejulgar os desígnios de Deus ou o limite da vida. Aquele instante final de agonia, que aos nossos olhos parece inútil, pode trazer um “clarão de arrependimento” vital para a alma no mundo espiritual.
Conclusão do Estudo
O Capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo é um divisor de águas na nossa compreensão da vida. Ele não apenas justifica a dor, tirando-lhe o caráter de “castigo cego”, mas a eleva à condição de remédio amargo, porém necessário, para a nossa cura espiritual.
Ao aprendermos que as nossas aflições são sempre justas, que são ferramentas de depuração (expiações ou provas), e que devemos suportá-las com resignação, paciência e perdão, o Espiritismo nos fornece a verdadeira chave para a consolação. A felicidade perfeita não é deste mundo, mas a paz de consciência e a certeza do amparo divino estão disponíveis a todos aqueles que sabem bem sofrer e que buscam na prática constante do bem e da caridade o seu verdadeiro cilício.
