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    CAPÍTULO XVII – Predições do Evangelho [parte 3]

    • – ADVENTO DE ELIAS
    • – ANUNCIAÇÃO DO CONSOLADOR
    • – SEGUNDO ADVENTO DO CRISTO

    A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo

    ADVENTO DE ELIAS

    33. Então, seus discípulos lhe perguntaram: “Por que então os escribas dizem ser preciso que Elias venha antes?” Mas Jesus respondeu: “É verdade que Elias deve vir e que restabeleça todas as coisas.
    “Mas, eu declaro a vocês que Elias já veio e eles não o conheceram; mas o trataram como lhes agradava. É assim que matarão o Filho do homem.”
    Então, seus discípulos compreenderam que era de João Batista que ele lhes falava. (Mateus, 17:10 a 13.)

    34. Elias já havia voltado na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de um modo explícito; ora, como ele não pode voltar senão com um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da pluralidade das existências. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV, item 10.)

    ANUNCIAÇÃO DO CONSOLADOR

    35. “Se vocês me amam, guardem meus mandamentos e eu pedirei a meu Pai e ele lhes enviará outro Consolador, a fim de que permaneça eternamente convosco: O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê; porém vocês, vocês o conhecerão, porque permanecerá com vocês e estará em vocês. Mas o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, ele lhes ensinará todas as coisas e fará com que relembrem de tudo o que lhes tenho dito.” (João, 14:15 a 17 e 26 – O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI.)

    36. “Entretanto, eu lhes digo a verdade: Convém a vocês que eu vá, pois se eu não for, o Consolador não virá até vocês; então eu vou e o enviarei a vocês; e quando ele tiver vindo, convencerá o mundo no que diz respeito ao pecado, à justiça e ao julgamento: no que diz respeito ao pecado, por não terem acreditado em mim; no que diz respeito à justiça, porque eu vou para meu Pai e vocês não mais me verão; no que diz respeito ao julgamento, porque o príncipe deste mundo já foi julgado.”
    “Tenho ainda muitas coisas a lhes dizer, mas vocês não podem suportá-las agora.”
    “Quando esse Espírito de Verdade tiver chegado, ele lhes ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e lhes anunciará as coisas que estão por vir.”
    “Ele me glorificará, porque receberá daquilo que está em mim e ele o anunciará a vocês.” (João, 16:7 a 14.)

    37. Essa previsão é sem contestação uma das mais importantes do ponto de vista religioso, pois ela constata da maneira menos equivocada que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, porque eles não o teriam compreendido, nem mesmo seus apóstolos, já que era a eles a quem Jesus se dirigia. Se ele lhes tivesse dado instruções secretas, eles teriam mencionado isso nos Evangelhos. Ora, desde que ele não tenha dito tudo a seus apóstolos, os seus sucessores não terão podido saber mais dessas instruções do que eles; poderiam ter se enganado quanto ao sentido das suas palavras e dado uma interpretação falsa aos seus pensamentos — muitas vezes velados sob a forma exagerada. As religiões fundadas no Evangelho não podem por isso se dizerem com a posse de toda a verdade, pois ele reservou para si o complemento posterior de seus ensinamentos. O princípio da imutabilidade é um desmentido dado às próprias palavras do Cristo.
    Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade Jesus anunciou aquele que devia ensinar todas as coisas e de relembrar o que ele dissera: portanto, o seu ensinamento não estava completo; e mais, ele prevê que aquilo que foi dito por ele seria esquecido, como também seria distorcido, já que o Espírito de Verdade deveria vir relembrar e, de acordo com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, segundo o verdadeiro pensamento de Jesus.

    38. Quando esse novo revelador deve vir? É bem evidente que se na época em que Jesus falava os homens não estavam em condições de compreender as coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns poucos anos que eles poderiam adquirir as luzes necessárias para tal. Para a compreensão de certas partes do Evangelho — exceção feita aos preceitos morais — faziam-se necessários conhecimentos que só o progresso das ciências permitiria e que tinham de ser obra do tempo e de várias gerações. Portanto, se o novo Messias tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, teria encontrado o terreno ainda pouco propício e não teria feito mais do que ele. Ora, desde o Cristo até nossos dias, não se produziu nenhuma grande revelação que tenha completado o Evangelho e que tenha elucidado suas partes obscuras — indício certo de que o Enviado ainda não havia aparecido.

    39. Qual deve ser esse Enviado? Ao dizer “Pedirei a meu Pai e ele lhes enviará outro Consolador”, Jesus claramente indica que esse não é ele, do contrário diria “Eu voltarei para completar o que lhes tenho ensinado”. Depois acrescentou: “A fim de que ele fique eternamente com vocês e ele estará em vocês”. Essa afirmação não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, que não poderia demorar-se eternamente conosco, nem ainda menos estar em nós, mas compreendemos muito bem que seja uma doutrina que, com efeito, quando a tivermos assimilado, poderá estar eternamente em nós. Segundo o pensamento de Jesus, o Consolador é de fato a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade.

    40. Como ficou demonstrado (cap. I, item 30) o Espiritismo preenche todas as condições do Consolador prometido por Jesus. Ele não é uma doutrina individual, uma concepção humana; ninguém pode se dizer ser o criador dele. Ele é fruto do ensino coletivo dos Espíritos presidido pelo Espírito de Verdade. Ele não suprime nada do Evangelho: ele o completa e o elucida; com a ajuda das novas leis que ele revela, unidas com as da ciência, ele faz inteligível o que era incompreensível e admite a possibilidade daquilo que a descrença considerava inadmissível. Ele teve seus precursores e profetas, que pressentiram sua vinda. Pela sua força moralizadora, ele prepara o reino do bem na Terra.
    A doutrina de Moisés — que era incompleta — ficou restrita ao povo judeu; a de Jesus — mais completa — se expandiu por toda a Terra pelo Cristianismo, mas não converteu todo o mundo; o Espiritismo — que é ainda mais completo e que tem raízes em todas as crenças — este converterá a humanidade.¹⁹⁸

    41. Dizendo a seus apóstolos “Outro virá mais tarde e lhes ensinará o que não posso ensinar agora”, Jesus proclamava com isso mesmo a necessidade da reencarnação. Como aqueles homens poderiam se beneficiar do ensino mais completo que seria ministrado posteriormente? Como estariam aptos a compreendê-lo, se não tivessem de viver novamente? Jesus teria proferido uma inconsequência se, segundo a doutrina comum, os homens futuros devessem ser homens novos, almas saídas do nada por ocasião do nascimento. Ao contrário, vamos admitir que os apóstolos e os homens do seu tempo tenham vivido depois e que ainda revivem hoje, então a promessa de Jesus estará plenamente justificada; suas inteligências — que puderam se desenvolver com o contato do progresso social — podem compreender agora o que antes não podia suportar. Sem a reencarnação, a promessa de Jesus teria sido ilusória.

    42. Se disserem que essa promessa se cumpriu no dia de Pentecostes¹⁹⁹ por meio da descida do Santo Espírito, responderemos que o Santo Espírito os inspirou, que pôde abrir a inteligência deles, desenvolveu neles as aptidões mediúnicas que deveriam facilitar a sua missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já havia ensinado, porque não encontramos aí nenhum vestígio de um ensinamento especial. Portanto, o Santo Espírito não realizou o que Jesus havia anunciado quanto ao Consolador; de outra forma os apóstolos teriam elucidado, enquanto vivos, tudo o que permaneceu obscuro no Evangelho até o dia de hoje e cuja interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que têm dividido o cristianismo desde os primeiros séculos.

    SEGUNDO ADVENTO DO CRISTO

    43. Então Jesus disse a seus discípulos: “Se alguém quiser vir depois de mim, que renuncie a si mesmo, que tome a sua cruz e que me siga; porque aquele que quiser salvar sua vida a perderá, e aquele que perder a vida por amor a mim a reencontrará.”
    “E de que serviria a um homem ganhar o mundo inteiro e perder a alma? Ou por qual preço o homem poderá comprar sua alma depois de tê-la perdido? Pois o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras.”
    “Na verdade, digo a vocês que alguns daqueles que aqui se encontram não sofrerão a morte sem que tenham visto o Filho do homem vir no seu reinado.” (Mateus, 16:24 a 28.)

    44. Então, levantando-se do meio da assembleia, o sumo-sacerdote interrogou a Jesus desta forma: “Nada responde ao que estes depõem contra ti?” Mas Jesus se conservava em silêncio e nada respondia. O sumo-sacerdote interrogou-o de novo: “Você é o Cristo, o Filho de Deus para sempre bendito?” Jesus lhe respondeu: “Eu o sou, e vocês verão um dia o Filho do homem assentado à direita da majestade de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.”
    Logo, rasgando suas vestes, o sumo-sacerdote lhe diz: “Que necessidade temos de mais testemunhas?” (Marcos, 16:60 a 63.)

    45. Jesus anuncia seu segundo advento, mas não diz que voltará à Terra com um corpo carnal, nem que o Consolador será personificado nele. Apresenta-se como devendo vir em Espírito, na glória de seu Pai, para julgar o mérito e o demérito, e recompensar a cada um segundo as suas obras, quando o tempo se cumprir.
    Estas palavras “alguns daqueles que aqui se encontram não sofrerão a morte sem que tenham visto o Filho do homem vir no seu reinado” parecem uma contradição, pois é certo que ele não veio durante a vida de nenhum daqueles que estavam presentes. Entretanto Jesus não podia se enganar numa previsão daquela natureza e, sobretudo, com relação a uma coisa contemporânea e que lhe dizia respeito pessoalmente; primeiro, temos que indagar se suas palavras foram sempre reproduzidas fielmente. É de duvidarmos, desde que se considere que ele nada escreveu; que elas só foram registradas depois de sua morte; e quando vemos o mesmo discurso quase sempre reproduzido em termos diferentes em cada um dos evangelistas — o que é uma prova evidente de que aquelas não eram as expressões textuais de Jesus. Além disso, é provável que o significado tenha sido alterado ao passar pelas traduções sucessivas.
    Por outro lado, é certo que se Jesus tivesse dito tudo o que poderia dizer, ele teria se expressado sobre todas as coisas de modo claro e preciso, sem dar lugar a qualquer equívoco — conforme o fez com relação aos princípios de moral — ao passo que foi obrigado a velar seu pensamento acerca dos assuntos que não julgou apropriado aprofundar. Convencidos de que a geração presente devia ser testemunha do que ele anunciava, os discípulos tiveram que interpretar o pensamento de Jesus de acordo com suas ideias; consequentemente, eles puderam redigi-las do ponto de vista do presente de maneira mais absoluta do que talvez ele próprio o teria feito. Seja como for, o fato é que as coisas não se passaram como eles imaginaram.

    46. Um ponto capital que Jesus não pôde desenvolver — porque os homens de seu tempo não estavam suficientemente preparados para essa ordem de ideias e suas consequências, embora ele tenha posto o princípio, como o fez com todas as coisas — é o da grande e importante lei de reencarnação. Essa lei, estudada e posta em evidência nos dias atuais pelo Espiritismo, é a chave para muitas passagens do Evangelho que, sem ela, parecem contrassensos.
    É por meio dessa lei que podemos encontrar a explicação racional das palavras acima, em as admitindo textualmente. Uma vez que elas não podem ser aplicadas às pessoas dos apóstolos, é evidente que elas se referem ao reino futuro do Cristo, isto é, ao tempo em que a sua doutrina, mais bem compreendida, será a lei universal. Dizendo que alguns daqueles que estavam presentes veriam o seu retorno, isso só poderia ser entendido no sentido de que eles reviveriam nessa época. Mas os judeus imaginavam que eles iriam ver tudo o que Jesus anunciava, e tomavam suas alegóricas literalmente.
    Aliás, algumas de suas predições se realizaram no seu tempo, tais como a ruína de Jerusalém, as desgraças que se seguiram àquela ruína e a dispersão dos judeus; mas Jesus projetava sua visão mais adiante, e ao falar do presente, ele constantemente fazia alusão ao futuro.


    Notas de Rodapé

    ¹⁹⁸ Todas as doutrinas filosóficas e religiosas trazem o nome do indivíduo fundador; dizemos: o Mosaísmo, o Cristianismo, o Maometismo, o Budismo, o Cartesianismo, o Furrierismo, o São-Simonismo etc. A palavra Espiritismo, ao contrário, não lembra nenhuma personalidade; contém uma ideia geral que ao mesmo tempo indica o caráter e a fonte múltipla da doutrina.

    ¹⁹⁹ Pentecostes: festa dos judeus em memória do dia em que Moisés recebeu de Deus as tábuas da lei (os Dez Mandamentos), cinquenta dias depois da fuga dos hebreus da escravidão no Egito; para os cristãos, data que marca os cinquenta dias após o domingo da Páscoa de ressurreição, sendo esta versão a que Allan Kardec aqui aponta, fazendo menção às “línguas de fogo” que caíram sobre os discípulos enquanto estavam reunidos nesta ocasião. – N. T.

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