- I. NATUREZA E PROPRIEDADE DOS FLUIDOS
- – Elementos fluídicos
- – Formação e propriedades do perispírito
- – Ação dos Espíritos sobre os fluidos; Criações fluídicas; Fotografia do pensamento
- – Qualidade dos fluidos
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
NATUREZA E PROPRIEDADES DOS FLUIDOS
Elementos fluídicos
1. A ciência deu a chave dos milagres que derivam mais particularmente do elemento material, seja lhes explicando, seja demonstrando a sua impossibilidade, através das leis que regem a matéria; mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem uma parte preponderante, esses, não podendo ser explicados unicamente pelas leis da natureza, escapam das investigações da ciência: esta é a razão pela qual eles, mais do que os outros, apresentam as características aparentes do maravilhoso. Pois é nas leis que regem a vida espiritual que podemos encontrar a explicação dos milagres dessa categoria.
2. Como já foi demonstrado, o fluido cósmico universal é a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade de corpos da natureza (Cap. X). Como princípio elementar universal, ele oferece dois estados distintos: o de eterização¹⁴⁷ ou imponderabilidade — que podemos considerar como o estado normal primitivo — e o de materialização ou de ponderabilidade — que de certa maneira é apenas subsequente àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí, não há transição brusca, pois podemos considerar nossos fluidos imponderáveis como termo médio entre os dois estados. (Cap. IV, itens 10 e seguintes.)¹⁴⁸
Cada um desses dois estados naturalmente dá lugar a fenômenos especiais: ao segundo (estado de materialização ou de ponderabilidade) pertencem os fenômenos do mundo visível, e ao primeiro (de eterização ou de imponderabilidade) pertencem os do mundo invisível. Uns, os chamados fenômenos materiais, são da alçada da ciência propriamente dita; os outros, qualificados de fenômenos espirituais ou psíquicos — porque se ligam de modo especial à existência dos Espíritos — estão nas atribuições do Espiritismo; porém, como a vida espiritual e a vida corporal estão em contato incessante, os fenômenos das duas categorias muitas vezes se apresentam simultaneamente. No estado de encarnação, o homem só pode ter a percepção dos fenômenos psíquicos que se ligam à vida corpórea; aqueles que estão no domínio exclusivo da vida espiritual escapam aos sentidos materiais e não podem ser percebidos senão no estado de Espírito.¹⁴⁹
3. No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, ele sofre modificações tão variadas nos seu gênero — e talvez mais numerosas — do que no estado de matéria tangível¹⁵⁰. Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedam do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível.
Sendo tudo relativo, esses fluidos têm uma aparência tão material para os Espíritos — que também são fluídicos — quanto à aparência dos objetos tangíveis têm para os encarnados, e são para eles o que as substâncias do mundo terrestre são para nós; eles os elaboram e os combinam para produzir determinados efeitos, como os homens fazem com os seus materiais, ainda que por procedimentos diferentes.
Mas lá, como neste mundo, somente aos Espíritos mais esclarecidos é dado compreender o papel dos elementos constitutivos do seu mundo. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar a si mesmos os fenômenos de que são testemunhas e para os quais muitas vezes contribuem maquinalmente, como os ignorantes da Terra são incapazes de explicar os efeitos da luz ou da eletricidade, de dizer como eles enxergam e escutam.
4. Os elementos fluídicos do mundo espiritual estão fora de alcance dos nossos instrumentos de análise e da percepção dos nossos sentidos — que são feitos para a matéria tangível e não para a matéria etérea. Há alguns que pertencem a um meio tão diferente do nosso que não podemos fazer uma ideia deles senão através de comparações tão imperfeitas como aquelas pelas quais um cego de nascença procura fazer ideia da teoria das cores.
Entre esses fluidos, todavia, alguns estão intimamente ligados à vida corporal, e de certa forma pertencem ao ambiente terreno. Na falta de observação direta, podemos observar seus efeitos como observamos aqueles do fluido do ímã, que jamais se viu, e adquirir conhecimentos sobre sua natureza com certa precisão. Esse estudo é essencial, porque é a chave de uma imensidade de fenômenos inexplicáveis apenas com as leis da matéria.
5. O ponto de partida do fluido universal é o grau de pureza absoluta, da qual nada pode nos dar uma ideia; o ponto oposto é o da sua transformação em matéria tangível. Entre esses dois extremos, há inúmeras transformações, que se aproximam mais ou menos de um e de outro. Os fluidos mais próximos da materialidade — consequentemente os menos puros — compõem o que podemos chamar a atmosfera espiritual terrestre. É nesse meio, onde também se encontram diferentes graus de pureza, que os Espíritos encarnados e desencarnados da Terra extraem os elementos necessários à organização de sua existência. Esses fluidos, por muito sutis e impalpáveis que sejam para nós, nem por isso deixam de ser de uma natureza grosseira em comparação com os fluidos etéreos das regiões superiores.
O mesmo acontece com a superfície de todos os mundos, salvo as diferenças de constituição e as condições de vitalidade próprias a cada um. Quanto menos material é a vida neles, menos os fluidos espirituais têm afinidades com a matéria propriamente dita.
A qualificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, já que definitivamente é sempre matéria, mais ou menos quintessenciada¹⁵¹. De espiritual realmente não há mais que a alma ou princípio inteligente. Nós o designamos assim por comparação e em razão sobretudo de sua afinidade com os Espíritos. Podemos dizer que é a matéria do mundo espiritual: eis por que lhes chamamos fluidos espirituais.
6. Aliás, quem conhece a composição íntima da matéria tangível? Talvez ela só seja compacta em relação aos nossos sentidos, e a prova disso é a facilidade com que ela pode ser atravessada pelos fluidos espirituais e os Espíritos aos quais ela não oferece mais obstáculo do que os corpos transparentes oferecem à luz.¹⁵²
Tendo por elemento básico o fluido cósmico etéreo, a matéria tangível ao se desagregar deve poder voltar ao estado de eterização, como o diamante — o mais duro dos corpos — pode se vaporizar em gás impalpável. A solidificação da matéria na realidade não é mais do que um estado transitório do fluido universal, que pode retornar ao seu estado original quando as condições de coesão deixam de existir.
Quem sabe até se no estado de tangibilidade a matéria não é suscetível de adquirir um tipo de eterização que lhe dê propriedades particulares? Certos fenômenos que parecem autênticos tenderiam a fazer supor isso. Nós não conhecemos mais do que as beiradas do mundo invisível, e sem dúvida o futuro nos reserva o conhecimento de novas leis que nos permitirão compreender o que hoje ainda é um mistério para nós.
Formação e propriedades do perispírito
7. O perispírito — ou corpo fluídico dos Espíritos — é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma. Já vimos que o corpo carnal também tem seu princípio nesse mesmo fluido transformado e condensado em matéria tangível; no perispírito, a transformação molecular se opera diferentemente, pois o fluido conserva sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas. Portanto, o corpo perispiritual e o corpo carnal têm sua fonte no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes.
8. Os Espíritos extraem seu perispírito no meio onde se encontram, quer dizer que esse envoltório é formado dos fluidos ambientes; resulta daí que os elementos constitutivos do perispírito devem variam conforme os mundos.
Júpiter sendo considerado como um mundo mais avançado em comparação com a Terra, onde a vida corporal não tem a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais lá devem ser de uma natureza infinitamente mais quintessenciada do que na Terra. Ora, assim como não poderíamos existir naquele mundo com nosso corpo carnal, nossos Espíritos não poderiam penetrar nele com seu perispírito terrestre. Ao deixar a Terra, o Espírito deixa aí o seu invólucro fluídico e se reveste de outro apropriado ao mundo para onde deva ir.
9. A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudá-lo ao seu gosto, e por conseguinte não podem passar de um mundo para outro à vontade. Por isso, há alguns cujo envoltório fluídico — se bem que etéreo e imponderável com relação à matéria tangível — ainda é pesado demais, se assim podemos dizer, em relação ao mundo espiritual, para lhe permitir sair do seu ambiente. Devemos incluir nessa categoria aqueles cujo perispírito é por demais grosseiro para que o confundam com seu corpo carnal, e que, por essa razão, creiam que ainda estejam vivos. Esses Espíritos — e o número deles é grande — permanecem na superfície da Terra como os encarnados, julgando-se entregues às suas ocupações; outros são um pouco mais desmaterializados, entretanto, não o suficiente para se elevar acima das regiões terrestres.¹⁵³
Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos inferiores e até encarnar neles. Eles extraem, nos elementos constitutivos do mundo onde ingressam, os materiais do corpo fluídico ou carnal apropriado ao ambiente em que se encontram. Eles fazem como o nobre que deixa suas belas vestes para se vestir momentaneamente de roupa velha, sem por isso deixar de ser nobre.
É assim que os Espíritos de ordem mais elevada podem se manifestar aos habitantes da Terra, ou encarnar em missão entre estes. Tais Espíritos trazem consigo, não o envoltório, mas a lembrança intuitiva das regiões de onde vieram e que eles veem pelo pensamento. São videntes entre cegos.
10. A camada de fluidos espirituais que envolvem a Terra pode ser comparada às camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas e menos puras do que as camadas superiores. Esses fluidos não são homogêneos; são uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as quais necessariamente se encontram as moléculas elementares que formam a sua base, porém mais ou menos alteradas. Os efeitos produzidos por esses fluidos estarão na razão da soma das partes puras que eles trazem. Assim é, por comparação, o álcool retificado ou misturado em diferentes proporções com água ou outras substâncias: seu peso específico aumenta por efeito dessa mistura, ao mesmo tempo em que diminuem a sua força e a sua capacidade de se inflamar, embora no todo haja álcool puro.
Os Espíritos chamados a viver nesse ambiente tiram daí seu perispírito; mas, conforme o Espírito tenha mais ou menos se purificado, seu perispírito se forma das partes mais puras ou das mais grosseiras do fluido apropriado ao mundo onde ele se encarna. O Espírito produz aí — sempre por comparação e não por assimilação — o efeito de um reativo químico que atrai para ele as moléculas assimiladas à sua natureza.
Resulta disso este fato capital que a composição íntima do perispírito não é idêntica em todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o espaço que a envolve. Não é o mesmo que se dá com o corpo carnal, que, como foi demonstrado, é formado dos mesmos elementos — qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espírito. Além disso, em todos, os efeitos produzidos pelo corpo são os mesmos, bem como as necessidades, ao passo que eles diferem em tudo o que diz respeito ao perispírito.
Daí ainda decorre que: o envoltório perispiritual do mesmo Espírito se modificar com o progresso moral daquele Espírito a cada encarnação, embora ele encarne no mesmo meio; que os Espíritos superiores, encarnando excepcionalmente em missão num mundo inferior, têm um perispírito menos grosseiro do que o dos nativos desse mundo.
11. O meio ambiente está sempre em relação com a natureza dos seres que devem viver nele: os peixes estão na água; os seres terrestres estão no ar; os seres espirituais estão no fluido espiritual ou etéreo, mesmo sobre a terra. O fluido etéreo está para as necessidades do Espírito o que a atmosfera está para as necessidades dos encarnados. Ora, do mesmo modo que os peixes não podem viver no ar; que os animais terrestres não podem viver numa atmosfera muito rarefeita para seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. Eles ali não morreriam, porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva os mantém afastados dali, como nos afastamos de um fogo muito ardente ou de uma luz muito deslumbrante. Eis aí por que eles não podem sair do meio apropriado à sua natureza; para mudarem desse ambiente, é preciso que eles mudem antes sua natureza e que se despojem dos instintos materiais que os retêm nos meios materiais; numa palavra, que se purifiquem e se transformem moralmente; Então, gradualmente, identificam-se com um meio mais depurado, que se torna para eles uma obrigação, uma necessidade, como os olhos daquele que viveu longo tempo nas trevas insensivelmente se habituam à luz do dia e à claridade do Sol.
12. Assim, tudo se liga, tudo se encadeia no Universo; tudo se submete à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta materialidade até a mais pura espiritualidade. A Terra é igual um vaso de onde escapa uma fumaça densa que vai clareando na medida em que se eleva e cujos fragmentos rarefeitos se perdem no espaço infinito.
A potência divina cintila em todas as partes desse grandioso conjunto e ainda querem que Deus, não contente com o que tem feito, venha perturbar essa harmonia para atestar seu poder! Querem que ele se rebaixe ao papel de mágico através de efeitos infantis dignos de um ilusionista! E ainda por cima ousam lhe dar como rival em habilidade o próprio Satanás! Na realidade, jamais se rebaixou tanto a majestade divina, e se admiram com o progresso da incredulidade.
Estão com razão ao dizer “A fé está sumindo!”. Mas, a que está sumindo é a fé em tudo que choca o bom-senso e à razão; é a fé igual a que antigamente levava a dizer: “Os deuses estão sumindo!”. Mas a fé nas coisas sérias, a fé em Deus e na imortalidade, essa está sempre vivaz no coração do homem, e por mais sufocada que tenha sido pelas histórias tolas com que a sobrecarregaram, ela se reerguerá mais forte desde que se liberte delas, tal como a planta reprimida se levanta de novo logo que volta a receber o Sol!
Sim, tudo é milagre na natureza, porque tudo é admirável e dá testemunho da sabedoria divina! Esses milagres são para todo o mundo, para todos os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, e não em proveito apenas de alguns. Não, não há milagres no sentido que se tem dado a essa palavra, porque tudo decorre das leis eternas da criação e são leis perfeitas.
Ação dos Espíritos sobre os fluidos – Criações fluídicas – Fotografia do pensamento
13. Os fluidos espirituais — que constituem um dos estados do fluido cósmico universal — são, propriamente falando, a atmosfera dos seres espirituais; é o elemento de onde eles tiram os materiais sobre os quais eles operam; é o meio onde se passam os fenômenos especiais, perceptíveis à visão e à audição do Espírito, e que escapam dos sentidos carnais impressionáveis somente pela matéria tangível; onde se forma essa luz particular ao mundo espiritual, diferente da luz comum por sua causa e por seus efeitos; enfim, é o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.
14. Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas pela ajuda do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que mão é para o homem. Pelo pensamento, eles dirigem esses fluidos para essa ou aquela direção; eles os aglomeram, combinam ou dispersam; formam com eles conjuntos que têm uma aparência, uma forma e uma coloração determinadas; mudam suas propriedades como um químico muda as propriedades dos gases ou de outros corpos combinando-os conforme certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.
Algumas vezes, essas transformações vêm de uma intenção; elas são frequentemente o produto de um pensamento inconsciente: basta o Espírito pensar em uma coisa para que esta coisa se produza.
É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à visão de um encarnado dotado da vista psíquica sob as aparências que ele tinha de sua vida na época em que o conheceu, embora tenha tido várias encarnações depois. Apresenta-se com o traje, os sinais exteriores — enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc. — que ele tinha na época; um decapitado irá se apresentar sem a cabeça. Isso não quer dizer que tenha conservado essas aparências; não, certamente, pois, como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado; mas seu pensamento se reportando à época em que era assim, seu perispírito instantaneamente toma suas aparências, que ele larga também instantaneamente desde quando o pensamento cessa de agir. Portanto, se uma vez ele foi negro e outra vez foi branco, ele se apresentará como branco ou negro, conforme aquela dessas duas encarnações sob a qual seja evocado e à qual dirigirá seu pensamento.
Por um efeito semelhante, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos de que ele esteja habituado a se servir; um avarento manuseará ouro, um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo, um lavrador a sua charrua e seus bois, uma idosa a sua roca. Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito — que também é fluídico — quanto eles eram no estado material para o homem vivo; mas, pela mesma razão de que são criados pelo pensamento, sua existência é tão passageira quanto o pensamento.¹⁵⁴
15. Os fluidos sendo o veículo do pensamento, este pensamento atua sobre os fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento como o ar nos traz o som. Podemos dizer, pois, com toda a verdade, que nesses fluidos há ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e radiações sonoras.
Tem mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico como num espelho; ele toma nele corpo e aí de certo modo se fotografa. Que um homem tenha a ideia, por exemplo, de matar a outro, embora o seu corpo material se conserve impassível, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento, do qual ele reproduz todos os detalhes; ele executa fluidicamente o gesto, o ato que planejou praticar; o pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira é pintada, como num quadro, tal qual se desenrola no seu espírito.
É assim que os mais secretos movimentos da alma repercutem no envoltório fluídico e que uma alma pode ler em outra alma como num livro, para ver o que não é perceptível aos olhos do corpo. Todavia, vendo a intenção, ela pode pressentir a execução do ato que lhe será a consequência, mas não pode determinar o instante em que ato será se cumprirá, nem lhe assinalar os detalhes, nem ainda afirmar que ele vá ocorrer, porque circunstâncias posteriores podem modificar os planos feitos e mudar as disposições. A alma não pode ver o que ainda não esteja no pensamento; o que ela vê é a preocupação habitual do indivíduo, seus desejos, seus projetos, seus desígnios bons ou maus.
Qualidade dos fluidos
16. A ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais tem consequências de uma importância direta e capital para os encarnados. Desde o instante em que esses fluidos são o veículo do pensamento e que o pensamento pode modificar as suas propriedades, é evidente que eles devem estar impregnados das qualidades boas ou más de pensamentos que os põem em vibração, modificados pela pureza ou impureza dos sentimentos. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. Os fluidos que envolvem os Espíritos maus ou os que estes projetam são, portanto, viciados, ao passo que aqueles que recebem a influência dos bons Espíritos são tão puros quanto o permite o grau da perfeição moral destes.
17. Seria impossível fazer uma enumeração ou classificação dos bons e dos maus fluidos, como é impossível especificar suas respectivas qualidades, uma vez que a diversidade deles é tão grande quanto a dos pensamentos.
Os fluidos não têm qualidades sui generis, mas aquelas que eles adquirem no meio onde se elaboram; eles se modificam pelos eflúvios desse meio, como o ar pelas exalações e a água pelos sais das camadas que ela atravessa. Conforme as circunstâncias essas qualidades — como as da água e do ar — são temporárias ou permanentes, o que os tornam mais especialmente apropriados à produção de tais ou tais efeitos determinados.
Os fluidos também não têm denominações especiais; como os odores, eles são designados pelas suas propriedades, seus efeitos e seu tipo original. Sob o ponto de vista moral, eles trazem a impressão dos sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme, de orgulho, de egoísmo, de violência, de hipocrisia, de bondade, de benevolência, de amor, de caridade, de doçura etc. Sob o aspecto físico, eles são excitantes, calmantes, penetrantes, constringentes, irritantes, dulcificantes, soporíficos, narcóticos, tóxicos, reparadores, expulsivos; tornam-se força de transmissão, de propulsão etc. O quadro dos fluidos seria, pois, o de todas as paixões, das virtudes e dos vícios da humanidade, e das propriedades da matéria correspondentes aos efeitos que eles produzem.
18. Sendo Espíritos encarnados, os homens têm em parte as atribuições da vida espiritual, pois eles vivem dessa vida tanto quanto da vida corporal — primeiramente durante o sono, e muitas vezes enquanto acordados. Ao encarnar, o Espírito conserva seu perispírito com as qualidades que lhe são próprias, e que, como se sabe, não fica circunscrito no corpo, mas irradia ao seu derredor e o envolve como que de uma atmosfera fluídica.
Pela sua união íntima com o corpo, o perispírito cumpre um papel preponderante no organismo; pela sua expansão, ele põe o Espírito encarnado em relação mais direta com os Espíritos livres e também com os Espíritos encarnados.
O pensamento do Espírito encarnado atua sobre os fluidos espirituais como também sobre o dos Espíritos desencarnados; ele se transmite de Espírito a Espírito da mesma forma e, dependendo se for bom ou mau, purifica ou vicia os fluidos circundantes.
Se os fluidos ambientes são modificados pela projeção dos pensamentos do Espírito, o seu envoltório perispiritual — que é parte integrante de seu ser e que diretamente recebe a impressão dos seus pensamentos, de uma maneira permanente — há de trazer ainda mais a impressão de suas qualidades boas ou más. Os fluidos viciados pelos eflúvios dos maus Espíritos podem se purificar pelo distanciamento daqueles, mas seu perispírito será sempre o que é, enquanto o que o Espírito não se modificar por si mesmo.
Como o perispírito dos encarnados é de natureza idêntica àquela dos fluidos espirituais, ele assimila esses fluidos com facilidade, como uma esponja se embebe de um líquido. Esses fluidos exercem sobre o perispírito uma ação tanto mais direta quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito se mistura com eles.
Esses fluidos agindo sobre o perispírito, este por sua vez reage sobre o organismo material com o qual está em contato molecular. Se as emanações são de boa natureza, o corpo ressente uma impressão saudável; se são más, a impressão é prejudicial; se as ações más são permanentes e enérgicas, elas podem determinar desordens físicas: certas doenças não têm outra causa.
Os meios onde os maus Espíritos predominam ficam assim impregnados de maus fluidos que são absorvidos por todos os poros perispiríticos, assim como os miasmas pestilenciais são absorvidos pelos poros do corpo.
19. Assim se explicam os efeitos que se produzem nos lugares de reunião. Uma assembleia é um foco de onde irradiam diversos pensamentos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada qual reproduz sua nota. Resulta daí uma multiplicidade de correntes e de emanações fluídicas em que cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro musical cada qual recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.
Mas, do mesmo modo como há radiações sonoras harmoniosas ou dissonantes, igualmente há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto é harmonioso, a impressão é agradável; se ele é discordante, a impressão é penosa. Ora, para isso, não é preciso que o pensamento seja expressa ou não.
Tal é a causa do sentimento de satisfação que experimentamos numa reunião simpática e animada de pensamentos bons e benévolos; aí ela reina como uma atmosfera moral salutar, onde respiramos confortavelmente; saímos daí reconfortado, porque ficamos impregnados de eflúvios fluídicos salutares; porém, se alguns pensamentos ruins se misturam, eles causam o efeito de uma corrente de ar glacial em um ambiente morno ou de uma nota errada num concerto. Desse modo também se explica a ansiedade e o mal-estar indefinido que sentimos num meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam correntes de ar nauseante.
20. O pensamento produz então uma espécie de efeito físico que reage sobre o moral; só o Espiritismo poderia tornar isso compreensível. O homem sente isso instintivamente quando procura as reuniões harmônicas e simpáticas, onde ele sabe que pode haurir novas forças morais; poderíamos dizer que ali ele recupera as perdas fluídicas que sofre todos os dias pela irradiação do pensamento, bem como pelos alimentos ele recupera as perdas do corpo material. É que, na realidade, o pensamento é uma emissão que ocasiona perda concreta de fluidos espirituais e, conseguintemente, de fluidos materiais, de maneira tal que o homem precisa se reconfortar através dos eflúvios que recebe do exterior.
Quando dizemos que um médico cura seu paciente com boas palavras, estamos com a absoluta verdade, pois o pensamento bondoso traz consigo fluidos reparadores que agem sobre o físico tanto quanto sobre o moral.
21. Irão dizer: sem dúvidas é possível evitar os homens que sabemos serem mal-intencionados, mas como escapar da influência dos maus Espíritos que povoam em torno de nós e se metem por toda parte sem serem vistos?
O meio é muito simples, porque depende da própria vontade do homem, que traz consigo a prevenção necessária. Os fluidos se unem em razão da semelhança de sua natureza; os fluidos dissemelhantes se repulsam; há incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como há entre o óleo e a água.
O que fazemos quando o ar está contaminado? Nós o saneamos e o depuramos destruindo o foco dos miasmas e combatendo as emanações prejudiciais por meio de correntes de ar saudáveis mais fortes. Contra a invasão de maus fluidos, carecemos então de lhes opor com os fluidos bons; e como cada pessoa tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, todos trazem consigo o seu remédio; trata-se apenas de purificar essa fonte e de lhe dar qualidades tais que elas sejam para as más influências um repelente, em vez de ser uma força atrativa. Portanto, o perispírito é uma armadura à qual se deve dar o melhor revestimento possível; ora, como as qualidades do perispírito correspondem às qualidades da alma, é preciso trabalhar pelo seu próprio melhoramento, pois são as imperfeições da alma que atraem os Espíritos maus.
As moscas vão aonde os focos de corrupção as atraem; destruam esses focos e as moscas desaparecerão. Da mesma maneira os maus Espíritos vão para onde o mal lhes atrai; destruam o mal e eles se afastarão. Os Espíritos realmente bons — encarnados ou desencarnados — nada têm a temer da influência dos maus Espíritos.
Notas de Rodapé
¹⁴⁷ Eterização: de maneira simples, entende-se como sendo o estado de pureza e sutileza — próprio do mundo espiritual —, no qual o fluido puro (antigamente denominado éter) é essencialmente constituído indivisivelmente. – N. T.
¹⁴⁸ Kardec trata aqui de uma espécie de matéria fluídica muito etérea, aquela que constitui o mundo espiritual, tão sutil que não é imperceptível pelo homem. Contudo, essa conceituação kardequiana não é a mesma ideia dos fluidos em voga pela ciência de seu tempo: os físicos daquela época supunham que havia uma classe de substâncias fluídicas imponderáveis, além da matéria comum conhecida; assim se dizia de fluidos luminosos, fluidos elétricos e fluidos calóricos, supostamente emitidos por corpos luminosos, eletrizados e aquecidos. Hoje sabemos que luz, eletricidade e calor não são fluidos, mas sim ondas eletromagnéticas. — N. T.
¹⁴⁹ A denominação de fenômeno psíquico representa mais exatamente o pensamento do que a de fenômeno espiritual, já que esses fenômenos se apoiam sobre as propriedades e os atributos da alma, ou, melhor, dos fluidos perispirituais — que são inseparáveis da alma. Esta qualificação os liga mais intimamente à ordem dos fatos naturais regidos por leis; então podemos admiti-los
¹⁵⁰ Matéria tangível: que pode ser captada pelos sentidos humanos (visão, audição, tato etc.) ou
¹⁵¹ Quintessenciado: aquilo que é do maior grau de pureza física, dito essência espiritual; relativo à quintessência (quinta-essência) também chamada éter ou elemento etéreo (sublime, elevado, divino), de uma natureza material especial que o diferencia dos demais elementos físicos; dito de quinta essência em sequência aos quatro elementos (terra, ar, fogo e água) que antigos pensadores supunham como sendo as formas primitivas da matéria de que então todos
¹⁵² Allan Kardec propõe aqui, de forma inovadora, o que a ciência logo mais confirmaria de forma categórica: que o átomo não é uma partícula sólida e indivisível como então se pensava,
¹⁵³ Exemplos de Espíritos que ainda se julgam deste mundo: Revista Espírita, dezembro de 1859 [“Um Espírito que não acredita estar morto”]; novembro de 1864 [“Sobre Espíritos que
¹⁵⁴ Revista Espírita, julho de 1859 [“O zoavo de Magenta”]; – O Livro dos Médiuns, 2ª Parte,
