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    CAPÍTULO XVIII – Os tempos chegaram [parte 1]

    A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo

    SINAIS DOS TEMPOS

    1. Dizem-nos de todas as partes que já chegaram os tempos marcados por Deus em que grandes acontecimentos vão se cumprir para a regeneração da humanidade. Em que sentido devemos entender essas palavras proféticas? Para os incrédulos, elas não têm nenhuma importância; aos seus olhos, não são mais do que a expressão de uma crença infantil e sem fundamento; para a maior parte dos crentes, elas têm qualquer coisa de místico e de sobrenatural que lhes parece ser o prenúncio de transgressão das leis da natureza. Essas duas interpretações são igualmente errôneas: a primeira, porque implica na negação da Providência; a segunda, porque tais palavras não anunciam a perturbação das leis da natureza, mas sim o cumprimento dessas leis.

    2. Tudo é harmonia na criação; tudo revela uma previdência que não se desmente nem nas menores coisas, nem nas maiores; então temos que afastar imediatamente toda ideia de capricho inconciliável com a sabedoria divina; em segundo lugar, se a nossa época está marcada para a realização de certas coisas, é que estas coisas têm uma razão de ser na marcha do conjunto.
    Isto posto, diremos que, como tudo o que existe, o nosso globo está submetido à lei do progresso. Ele progride fisicamente pela transformação dos elementos que o compõem e moralmente pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o habitam. Ambos esses progressos se seguem e caminham paralelamente, porque o aperfeiçoamento da habitação está em relação com o aperfeiçoamento do habitante. Fisicamente, o globo tem experimentado transformações, constatadas pela ciência, e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados; moralmente, a humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo em que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens contribuem para isso com os esforços de sua inteligência; eles saneiam as regiões insalubres, tornam as comunicações mais fáceis e o solo mais produtivo.
    Esse duplo progresso é executado de duas maneiras: uma lenta, gradual e insensível; a outra por mudanças mais bruscas, a cada uma das quais se opera um movimento de crescimento mais rápido que marca, por características bem acentuadas, os períodos progressivos da humanidade. Esses movimentos — subordinados nos detalhes ao livre-arbítrio dos homens — de certo modo são fatais em seu conjunto, porque estão sujeitos a leis, como aqueles que se operam na germinação, no crescimento e na maturidade das plantas; é por isso que o movimento progressivo às vezes é parcial, isto é, limitado a uma raça ou a uma nação, e de outras vezes, é geral.
    O progresso da humanidade de fato se efetua em virtude de uma lei; ora, como todas as leis da natureza são obra eterna da sabedoria e da presciência divinas, tudo o que é efeito dessas leis é o resultado da vontade de Deus, e não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Por isso, quando a humanidade está madura para subir um degrau, podemos dizer que os tempos marcados por Deus chegaram, como se pode dizer também que em tal estação chegaram a fase madura dos frutos e de sua colheita.

    3. Pelo fato de o movimento progressivo da humanidade ser inevitável, já que faz parte da natureza, não se segue que Deus seja indiferente a ela, e que depois de ter estabelecido as leis ele tenha se recolhido à inércia, deixando que as coisas seguirem sozinhas. Sem dúvida, suas leis são eternas e imutáveis, mas porque a sua própria vontade é eterna e constante, e porque o seu pensamento anima todas as coisas sem interrupção; seu pensamento, que penetra tudo, é a força inteligente e permanente que mantém tudo em harmonia; que esse pensamento cesse um só instante de atuar e o Universo seria como um relógio sem ponteiros reguladores. Logo, Deus cuida incessantemente da execução de suas leis e os Espíritos que povoam o espaço são seus ministros encarregados dos detalhes, segundo as atribuições correspondentes ao seu grau de adiantamento.

    4. O Universo é um mecanismo incomensurável conduzido por um número incontável de inteligências e ao mesmo tempo um imenso governo no qual cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as vistas do soberano Mestre, cuja vontade única mantém por toda parte a unidade. Sob o império dessa vasta potência reguladora, tudo se move, tudo funciona em perfeita ordem; aquilo que nos parece perturbações são movimentos parciais e isolados, que só nos parecem irregulares porque a nossa visão é limitada. Se pudéssemos avistar todo o seu conjunto, veríamos que essas irregularidades não são mais do que aparentes e que elas se harmonizam no quadro geral.

    5. A humanidade tem realizado até nossos dias incontestáveis progressos; com a sua inteligência, os homens chegaram a resultados que jamais haviam alcançado com relação às ciências, às artes e ao bem-estar material; resta-lhes ainda um imenso progresso a efetuar: o de fazer reinarem entre eles a caridade, a fraternidade e a solidariedade para lhes assegurar o bem-estar moral. Eles não poderiam conseguir isso nem com suas crenças nem com suas instituições antiquadas — restos de outra era, boas para certa época e suficientes para um estado transitório, mas que, tendo dado tudo o que podiam, seriam hoje um entrave. Já não é somente o desenvolvimento da inteligência que falta aos homens, mas a elevação do sentimento, e para isso é preciso destruir tudo o que exalta neles o egoísmo e o orgulho.
    Eis o período em que vão entrar doravante, e que marcará uma das fases principais da humanidade. Essa fase que se elabora neste momento é o complemento necessário do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude; pois então, ela podia ser prevista e predita de antemão, e é por isso que se diz que os tempos determinados por Deus já chegaram.

    6. Neste tempo aqui, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, nem um povo ou a uma raça; é um movimento universal que se efetua no sentido do progresso moral. Uma nova ordem de coisas tende a se estabelecer, e até os homens que mais se opõem a esse progresso trabalham para ela, mesmo sem consciência disso; a geração futura — desembaraçada da escória do velho mundo e formada de elementos mais depurados — se achará motivada por ideias e sentimentos totalmente diferentes que a geração atual, que se vai a passos de gigante. O velho mundo estará morto e ficará só na História, como ocorre hoje com os tempos da Idade Média, com seus costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.
    Aliás, cada um sabe quanto a ordem atual de coisas ainda deixa a desejar; de qualquer modo, depois de termos esgotado todo o bem-estar material que é fruto da inteligência, conseguimos compreender que o complemento desse bem-estar somente não pode estar senão no desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, mais se sente o que falta, sem que, entretanto, possamos ainda o definir claramente: isso é efeito do trabalho íntimo que se opera em prol da regeneração; temos desejos, aspirações que são como que o pressentimento de um estado melhor.

    7. Mas uma mudança tão radical como a que está sendo elaborada não pode se produzir sem comoções; há luta inevitável entre as ideias. Desse conflito forçosamente nascerão perturbações temporárias até que o terreno seja aplanado e o equilíbrio restabelecido. Com efeito, é da luta das ideias que surgirão graves eventos anunciados, e não de cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais foram a consequência do estado de formação da Terra: hoje, não são mais as entranhas do planeta que se agitam: são as da humanidade.

    8. Se a terra já não tem que temer os cataclismos gerais, nem por isso ela deixa de estar sujeita às revoluções periódicas, cujas causas são explicadas — do ponto de vista científico — pelas instruções seguintes fornecidas por dois eminentes espíritos:²⁰²

    “Cada corpo celeste, além das leis simples que presidem à divisão dos dias e das noites, das estações etc., experimenta as revoluções que demandam milhares de séculos para sua realização completa, mas que, como revoluções mais breves, passam por todos os períodos, desde o nascimento até um máximo de efeito, após o qual há decrescimento até o último limite, para em seguida recomeçar o percurso das mesmas fases.
    “O homem não compreende mais do que as fases de uma duração relativamente e das quais ele pode constatar a periodicidade; mas há algumas que abrangem longas gerações de seres, e até sucessões de raças, revoluções essas cujos efeitos conseguintemente têm para as aparências de novidade e de espontaneidade, ao passo que, se seu olhar pudesse se projetar para alguns milhares de séculos atrás, ele veria, entre aqueles mesmos efeitos e suas causas uma correlação de que ele nem suspeita. Esses períodos que, pela sua extensão relativa, confundem a imaginação dos humanos, não são, contudo, mais do que instantes na duração eterna.
    “Num mesmo sistema planetário, todos os corpos que dele dependem reagem uns sobre os outros; todas as influências físicas são nele solidárias e, dos efeitos que vocês designam pelo nome de grandes perturbações, não há um só que não seja consequência da componente das influências de todo esse sistema.
    “Vou mais longe: digo que os sistemas planetários reagem uns sobre os outros, na razão da proximidade ou do distanciamento resultantes dos seus movimentos de translação através das miríades de sistemas que compõem a nossa nebulosa. Eu vou mais longe ainda: digo que a nossa nebulosa, que é um como arquipélago na imensidade, tendo também seu movimento de translação através das miríades de nebulosas, sofre a influência das nebulosas de que ela se aproxima.
    “Assim as nebulosas reagem sobre as nebulosas, os sistemas reagem sobre os sistemas, como os planetas reagem sobre os planetas, como os elementos de cada planeta reagem uns sobre os outros e assim, de elemento em elemento, até o átomo; daí as revoluções locais ou gerais em cada mundo, que parecem perturbações apenas porque a brevidade da vida não permite que se veja mais do que os efeitos parciais.
    “A matéria orgânica não poderia escapar dessas influências; as perturbações que ela sofre podem então alterar o estado físico dos seres vivos e determinar algumas dessas enfermidades que atacam de uma maneira geral as plantas, os animais e os homens; essas enfermidades, como todos os flagelos, são para a inteligência humana um estimulante que, por força da necessidade, a arrasta a procurar os meios de lhes combater e à descoberta das leis da natureza.
    “Mas, por sua vez, a matéria orgânica reage sobre o Espírito; este, pelo seu contato e sua ligação íntima com os elementos materiais, também sofre as influências que modificam suas disposições, sem, no entanto, privar o seu livre-arbítrio, sobre-excitando ou atenuando sua atividade, e que, por isso mesmo, contribuem para o seu desenvolvimento. A efervescência que às vezes se manifesta em toda uma população, entre os homens de uma mesma raça, não é uma coisa fortuita nem o resultado de um capricho; ela tem a sua causa nas leis da natureza. Essa efervescência — inconsciente a princípio, não passando de um vago desejo, uma de aspiração indefinida por alguma coisa melhor, uma necessidade de mudança — se traduz por uma surda agitação, depois por atos que conduzem as revoluções sociais, as quais — acreditem! — também têm sua periodicidade, como as revoluções físicas, pois que tudo se encadeia. Se a visão espiritual não fosse circunscrita pelo véu material, vocês veriam as correntes fluídicas que, como milhares de fios condutores, conectam as coisas do mundo espiritual e as do mundo material.
    “Quando lhe dizem que a humanidade chegou a um período de transformação e que a Terra deve se elevar na hierarquia dos mundos, não vejam nada de místico nessas palavras, mas ao contrário, vejam o cumprimento de uma das grandes leis fatais do Universo, contra as quais toda a má vontade humana se quebra.” Arago

    9. “Sim, decerto a humanidade se transforma, como já se transformou em outras épocas, e cada transformação é marcada por uma crise que, para o gênero humano, é aquilo que são as crises de crescimento para os indivíduos; crises às vezes penosas, dolorosas, que arrebatam consigo as gerações e as instituições, mas sempre seguidas de uma fase de progresso material e moral.
    “A humanidade terrestre, tendo chegado a um desses períodos de crescimento, está há quase um século integrada no trabalho da sua transformação; é por isso que ela se agita de todos os lados, presa a uma espécie de febre e como que movida por uma força invisível, até que tenha retomado seu lugar nas novas bases. Quem a observar, então a encontrará bem modificada nos seus costumes, no seu caráter, suas leis, suas crenças e, numa palavra, em todo o seu estado social.
    “Uma coisa que lhes parecerá estranha, mas que nem por isso deixa de ser uma rigorosa verdade, é que o mundo dos Espíritos que lhes rodeia sofre o contrachoque de todas as comoções que abalam o mundo dos encarnados; digo mesmo que aquele toma parte ativa nessas comoções. Isso não tem nada de surpreendente para quem sabe que os Espíritos formam um só corpo com a humanidade; que eles saem dela e a ela retornam; então é natural que eles se interessem pelos movimentos que se operam entre os homens. Portanto, fiquem certos de que quando uma revolução social se produz na terra, ela abala igualmente o mundo invisível; todas as boas e más paixões são lá superexcitadas como são entre vós; uma indizível efervescência reina entre os Espíritos que ainda fazem parte do vosso mundo e que a ele aguardam o momento de regressar.
    “À agitação dos encarnados e desencarnados às vezes — e muito frequentemente mesmo, já que tudo se encadeia na natureza — se juntam as perturbações dos elementos físicos; ocorre então, por algum tempo, uma verdadeira confusão geral, mas que passa como um furacão, após o qual o céu volta a ficar sereno, e a humanidade — reconstituída sobre novas bases e imbuída de novas ideias — percorre uma nova etapa de progresso.
    “É no período que se inicia que veremos o espiritismo florescer e dar seus frutos. Pois, é mais para o futuro do que para o presente que vocês trabalham; porém, era necessário que esses trabalhos fossem elaborados antes, porque eles preparam os caminhos da regeneração pela unificação e racionalidade das crenças. Felizes aqueles que deles se beneficiam desde já; isso será para eles bastante ganho e dores poupadas.” Doutor Barry

    10. Resulta do que foi dito, em consequência do movimento de translação através do espaço, que os corpos celestes exercem uns sobre os outros uma influência maior ou menor, de acordo com sua proximidade e sua posição respectiva; que essa influência pode trazer uma perturbação momentânea nos seus elementos constitutivos e modificar as condições de vitalidade dos seus habitantes; resulta também que a regularidade dos movimentos deve determinar o retorno periódico das mesmas causas e dos mesmos efeitos; que se a duração de certos períodos for demasiado curta para ser apreciada pelos homens, outros veem passar gerações e raças que não a apercebam, e para os quais o estado das coisas é um estado normal; ao contrário, as gerações contemporâneas da transição sofrem o seu contrachoque e tudo lhes parece fora das leis comuns. Essas gerações veem uma causa sobrenatural, maravilhosa, miraculosa no que, na realidade, não é mais do que o cumprimento das leis da natureza.
    Pelo encadeamento e a solidariedade das causas e dos efeitos, se os períodos de renovação moral da humanidade coincidem — como tudo leva a crer — com as revoluções físicas do globo, esses períodos podem ser acompanhados ou precedidos de fenômenos naturais, inusitados para quem não está habituado com eles, fenômenos de meteoros que parecem estranhos, de um aumento e de uma intensidade incomum de pragas destrutivas. Esses flagelos não são nem uma causa nem presságios sobrenaturais, mas apenas uma sequência do movimento geral que se opera no mundo físico e no mundo moral.
    Anunciando a época de renovação que havia de abrir para a humanidade e marcar o fim do velho mundo, Jesus pode então dizer que ela seria sinalizada por fenômenos extraordinários, terramotos, flagelos diversos, sinais no céu que não são mais do que meteoros, sem sair das leis naturais; mas o homem comum e ignorante viu nessas palavras o anúncio de fatos miraculosos.²⁰³

    11. A previsão dos movimentos progressivos da humanidade nada tem de surpreendente entre os seres desmaterializados que observam o objetivo a que todas as coisas tendem, e alguns desses seres conhecem o pensamento direto de Deus, e imaginam, pelos movimentos parciais, em que época poderão se cumprir um movimento geral, como podemos imaginar o tempo necessário para uma árvore brotar seus frutos, assim como os astronautas calculam a época de um fenômeno astronômico pelo tempo que falta para um astro cumprir sua revolução.

    12. A humanidade é um ser coletivo em quem se operam as mesmas revoluções morais pelas quais cada ser individual passa, com a diferença de que umas se realizam de ano em ano e as outras de século em século. Acompanhemos a humanidade em suas evoluções através dos tempos e nós veremos a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia particular.

    13. A marcha progressiva da humanidade se processa de duas maneiras, como já dissemos: uma é gradual, lenta e imperceptível se considerarmos as épocas aproximadas, que se traduzem por sucessivos melhoramentos nos costumes, nas leis, nos usos e que só percebemos ao longo do tempo, assim como as mudanças que as correntes d’água deixam na superfície do globo; a outra é por movimentos relativamente bruscos e rápidos, semelhantes aos de uma torrente rompendo suas barragens, que o faz transpor em alguns anos o percurso que levaria séculos para ser percorrido. É, portanto, um cataclismo moral que em breves instantes engole as instituições do passado e ao qual sucede uma nova ordem de coisas que pouco a pouco se assenta, à medida que a tranquilidade se restabelece e se torna definitiva.
    Para quem vivesse bastante tempo para alcançar as duas vertentes da nova fase, pareceria que um mundo novo surgiu das ruínas do antigo; o caráter, os costumes e os usos, tudo está mudado; é que de fato surgiram homens novos, ou melhor, regenerados; as ideias levadas pela geração que está se acabando deram lugar a ideias novas na geração que está surgindo.

    14. Ao se tornar adulta, a humanidade tem novas necessidades, aspirações mais vastas e mais elevadas; ela compreende o vazio de ideias com que foi acalentada, a insuficiência de suas instituições para sua felicidade; já não é mais no estado das coisas que ela encontra as satisfações legítimas às quais ela se sente chamada; eis por que ela sacode as fraldas e, movida por uma força irresistível, lança-se em direção às margens desconhecidas, em busca de novos horizontes menos limitados.
    É a um desses períodos de transformação — ou se preferirem, de crescimento moral — que a humanidade chegou. Da adolescência ela passa à idade viril; o passado já não pode satisfazer às suas novas aspirações e às suas novas necessidades; ela não pode mais ser conduzida pelos mesmos modos; não mais se deixa levar por ilusões e por seduções: sua razão amadurecida requer alimentos mais substanciais. O presente é bastante efêmero; ela sente que a sua destinação é mais vasta e que a vida corpórea é muito restrita para contê-lo inteiramente; por isso ela mergulha seus olhares no passado e no futuro a fim de aí descobrir o mistério da sua existência e aí adquirir uma certeza consoladora.
    E é no momento em que ela se encontra muito apertada na esfera material, em que a vida intelectual transborda e o sentimento da espiritualidade se desabrocha, que os homens que se dizem filósofos esperam preencher o vazio através das doutrinas do nada e do materialismo! Estranha aberração! Esses mesmos homens, que pretendem impelir a humanidade de avançar, esforçam-se por limitá-la no estreito círculo da matéria, de onde ela deseja sair; eles lhe encobrem o aspecto da vida infinita e lhe dizem, apontando para o túmulo: Nec plus ultra! ²⁰⁴

    15. Qualquer um que tenha meditado sobre o Espiritismo e suas consequências, e não o reduza à produção de alguns fenômenos, compreende que ele abre um novo caminho para a humanidade e desenrola os seus horizontes do infinito; iniciando o homem nos mistérios do mundo invisível, ele lhe mostra o seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente ativo tanto no estado espiritual, quanto no estado corporal. O homem já não caminha mais às cegas: ele sabe de onde vem, para onde vai e por que está na Terra. O futuro se revela a ele em sua realidade, livre dos preconceitos da ignorância e da superstição; já não se trata de uma vaga esperança: é uma verdade palpável, tão certa como a sucessão do dia e da noite. Ele sabe que o seu ser não está limitado a alguns instantes de uma existência passageira; que a vida espiritual não se interrompe por efeito da morte; que ele já viveu e ainda tornará a viver, e que de tudo o que adquiriu em perfeição pelo seu trabalho, nada se perde; encontra nas suas existências anteriores a razão do que é hoje; e: daquilo que o homem faz para si mesmo hoje, pode concluir o que ele será um dia.

    16. Com o pensamento que a atividade e a cooperação individuais na obra geral da civilização estão limitadas à vida presente, que não éramos nada e nada seremos depois, o que interessa ao homem o progresso posterior da humanidade? Que importa para ele que no futuro os povos sejam mais bem governados, mais felizes, mais esclarecidos, melhores uns para com os outros? Como ele não colherá nenhum fruto disso, esse progresso não está perdido para ele? De que lhe serve trabalhar para os que virão depois dele, se ele nunca irá conhecê-los, se serão criaturas novas que logo depois também retornarão ao nada? Sob o império da negação do futuro individual, tudo se encolhe obrigatoriamente às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.
    Mas, ao contrário, quanta amplitude a certeza da perpetuidade do seu ser espiritual dá ao pensamento do homem! O que há de mais racional, de mais grandioso, de mais digno do Criador do que essa lei segundo a qual a vida espiritual e a vida corpórea são apenas dois modos de existência que se alternam para a realização do progresso! Como é justa e consoladora a ideia de os mesmos seres progredindo incessantemente — primeiro, através das gerações de um mesmo mundo, e segundo, de mundo em mundo até a perfeição, sem solução de continuidade! Todas as ações têm então um propósito, pois, trabalhando para todos, cada qual trabalha para si e reciprocamente, de sorte que nem o progresso individual nem o progresso coletivo jamais são estéreis; ele beneficia as gerações e as individualidades futuras, que não são outras senão as gerações e os indivíduos passados, que chegaram a um grau mais alto de adiantamento.

    17. A fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social; mas não há fraternidade real, sólida e efetiva se ela não for assentada sobre uma base inabalável; essa base é a fé; não a fé nesses ou naqueles dogmas particulares que mudam com os tempos e com os povos e que mutuamente se apedrejam, mas a fé nos princípios fundamentais que todo mundo pode aceitar: Deus, a alma, o futuro, O PROGRESSO INDIVIDUAL SEM FIM, A PERPETUIDADE DAS RELAÇÕES ENTRE OS SERES. Quando todos os homens estiverem convictos de que Deus é o mesmo para todos, que esse Deus — soberanamente justo e bom — não pode querer nada de injusto, e que o mal vem dos homens e não de Deus, então todos se considerarão filhos do mesmo Pai e se darão as mãos.
    É essa fé que o Espiritismo oferece e que de agora em diante será o eixo em torno do qual o gênero humano se moverá, quaisquer que sejam seus meios de adoração e suas crenças particulares.

    18. O progresso intelectual realizado até nossos dias nas mais vastas proporções é um grande passo e marca a primeira fase da humanidade, mas sozinho ele é impotente para regenerá-la; enquanto o homem for dominado pelo orgulho e pelo egoísmo, ele utilizará sua inteligência e os seus conhecimentos em benefício das suas paixões e dos seus interesses pessoais; eis por que ele aplica seus conhecimentos para o aperfeiçoamento dos meios de prejudicar os seus semelhantes e de destruí-los.

    19. Somente o progresso moral pode assegurar a felicidade aos homens na Terra, colocando um freio nas más paixões; só ele pode fazer reinar entre os homens a concórdia, a paz e a fraternidade.
    É ele que derrubará as barreiras entre os povos, e que fará tombar os preconceitos de casta e que calará os antagonismos das seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos convocados a se ajudarem mutuamente, e não a viverem às custas uns dos outros.
    Será ainda o progresso moral que, então apoiado pelo progresso da inteligência, unirá os homens numa mesma crença estabelecida nas verdades eternas, não sujeitas a controvérsias e por isso mesmo aceitáveis por todos.
    A unidade de crença será o laço mais forte e o fundamento mais sólido da fraternidade universal, que desde todos os tempos é barrada pelas disputas religiosas que dividem os povos e as famílias, que fazem que os dissidentes sejam vistos como inimigos a serem evitados, combatidos e exterminados, em vez de irmãos a quem devemos amar.

    20. Semelhante estado de coisas pressupõe uma mudança radical no sentimento das massas, um progresso generalizado que só podia se cumprir saindo do círculo das ideias estreitas e corriqueiras que fomentam o egoísmo. Em diversas épocas, os homens da elite procuraram levar a humanidade por esse caminho; mas a humanidade, ainda muito jovem, tem se conservado surda, e os ensinamentos deles foram como a boa semente caída sobre a pedra.
    Hoje a humanidade está madura para lançar seu olhar mais alto do que tem feito, para assimilar ideias mais largas e compreender o que antes ela não compreendia.
    A geração que desaparece levará consigo seus preconceitos e seus erros; a geração que surge — retemperada em uma fonte mais pura, e imbuída de ideias mais saudáveis — imprimirá ao mundo um movimento crescente no sentido do progresso moral, que determinará a nova fase da humanidade.

    21. Essa fase já se revela por sinais inequívocos, pelas tentativas de reformas úteis através de ideias robustas e generosas que se concretizam hoje e que começam a encontrar eco. Assim é que vemos ser fundada uma imensidade de instituições protetoras, civilizadoras e libertadoras, sob a impulsão e a iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da regeneração; que as leis penais a cada dia vão sendo impregnadas de um sentimento mais humano. Os preconceitos de raça se enfraquecem, os povos começam a se verem membros de uma grande família; pela uniformidade e facilidade dos meios de transação, eles suprimem as barreiras que os separavam; de todas as partes do mundo os povos se reúnem em comícios universais para os torneios pacíficos da inteligência.
    Porém, falta a essas reformas uma base para se desenvolverem, completarem-se e se consolidarem; falta uma predisposição moral mais generalizada para frutificar e ser aceita pelas massas. Pelo menos, isso tudo é um sinal característico do tempo, o prelúdio daquilo que se efetuará em uma escala mais larga, à medida que o terreno se torne mais propício.

    22. Outro sinal não menos característico do período em que entramos é a reação evidente que se processa no sentido das ideias espiritualistas; uma repulsão instintiva se manifesta contra as teorias materialistas. O Espírito de descrença — que se apoderara das massas, ignorantes ou esclarecidas, e as levava a rejeitar, com a forma, a substância mesma de toda crença — parece ter sido um sono do qual despertamos e sentimos a necessidade de respirar um ar mais vivificante. Involuntariamente, lá onde o vácuo se havia feito, procura-se alguma coisa, um ponto de apoio, uma esperança.

    23. Se imaginarmos a maioria dos homens convencidos desses sentimentos, podemos facilmente conceber as modificações que eles trariam nas relações sociais: caridade, fraternidade, benevolência para com todos e tolerância para com todas as crenças; assim seria seu lema. Esta é a meta para a qual evidentemente a humanidade tende, o objeto de suas aspirações e de seus desejos, sem que ela se dê conta dos meios de realizá-los; ela ensaia, apalpa, mas é detida por resistências ativas ou pela força da inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e repressoras do progresso. São essas resistências que ele deve superar, e essa será a obra da nova geração; se acompanharmos o curso atual das coisas, nós reconheceremos que tudo parece predestinado a abrir o seu caminho; ela terá por si a dupla força do número e das ideias, e por acréscimo a experiência do passado.

    24. A nova geração caminhará então para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que tiver chegado. Com o Espiritismo caminhando para o mesmo objetivo e realizando seus planos, eles se reencontrarão no mesmo terreno. Os homens de progresso encontrarão nas ideias espíritas uma poderosa alavanca e o Espiritismo terá nos novos homens espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo. Nessa situação, o que poderiam fazer os que queiram atravessar o seu caminho?

    25. Não foi o Espiritismo que criou a renovação social, foi a maturidade da humanidade que fez dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas e pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto a promover o movimento regenerador do que qualquer outra doutrina; por isso que ele é contemporâneo desse movimento. Ele surgiu no momento em que podia ser útil, pois também para ele os tempos já chegaram; se tivesse vindo mais cedo, ele teria se deparado com obstáculos insuperáveis; inevitavelmente teria sucumbido, porque os homens — satisfeitos com o que tinham — não sentiriam ainda a necessidade do que ele traz. Hoje, nascido com o movimento das ideias que fermentam, o Espiritismo encontra o terreno preparado para recebê-lo; os Espíritos — cansados da dúvida e da incerteza, apavorados com o abismo que se abre diante deles — acolhem o Espiritismo como âncora de salvação e uma suprema consolação.

    26. O número dos atrasados ainda é grande, sem dúvidas, mas o que eles podem fazer contra a maré que se agiganta senão lhe atirar algumas pedras? Essa maré é a geração que se levanta, enquanto os atrasados desaparecem junto com a geração que segue a cada dia a passos largos. Até lá, eles defenderão o terreno palmo a palmo; portanto, há uma luta inevitável, mas uma luta desigual, porque é a do passado decrépito caindo em frangalhos contra o futuro juvenil; é a luta da estagnação contra o progresso; da criatura contra a vontade de Deus, uma vez que os tempos determinados por ele já chegaram.


    Notas de Rodapé

    ²⁰² Extrato de duas comunicações dadas na Sociedade de Paris e publicadas na Revista Espírita de outubro de 1868: ‘Influência dos planetas nas perturbações do globo terrestre’. Elas são o corolário das comunicações de Galileu, reproduzidas no capítulo VI, e um complemento ao capítulo IX, sobre as revoluções do globo.

    ²⁰³ A terrível epidemia de 1866 a 1868 que dizimou a população da Ilha Maurício, foi precedida de uma tão extraordinária e tão abundante chuva de estrelas cadentes, em novembro de 1866, que os habitantes daquela ilha ficaram aterrorizados. Foi a partir desse momento que a doença que já durava alguns meses de uma forma muito benigna, transformou-se em um verdadeiro flagelo devastador. Foi de fato um sinal no céu e talvez seja nesse sentido que se deva entender estrelas caindo do céu, de que fala o Evangelho, como um dos sinais dos tempos. (Detalhes sobre a epidemia da Ilha Maurício na Revista Espírita, julho de 1867, e novembro de 1868.)

    ²⁰⁴ Nec plus ultra: expressão em latim equivalente a “nada mais além”. – N. T.

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