
Vivemos imersos no que os próprios Espíritos já chamavam de um “século de cupidez e de dinheiro”, no qual as necessidades materiais frequentemente se sobrepõem ao bom senso e à razão. Nessa corrida desenfreada por posses, instaura-se uma verdadeira “luta de interesses em que as mais santas afeições são pisoteadas” e onde a vitória parece pertencer aos “mais espertos”.
A Riqueza: Uma Prova Escorregadia
O ensinamento espírita é categórico ao reafirmar as palavras do Cristo de que ninguém pode servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamon, ou seja, à divindade e ao dinheiro,. Para o Espiritismo, a riqueza material não é um mal em si mesma, mas é considerada uma prova muito escorregadia, mais perigosa do que a miséria, devido aos seus atrativos e às tentações que provoca.
A ganância financeira é a suprema excitação do orgulho, do egoísmo e da vida sensual, tornando-se o laço mais poderoso que aprisiona o homem à Terra e desvia seus pensamentos do céu. Muitas vezes, a fortuna cega o indivíduo de tal forma que este, ao passar da miséria para a opulência, rapidamente se esquece daqueles que o ajudaram no passado, tornando-se insensível, egoísta e vão. O “amor desenfreado pela riqueza” faz com que o homem sacrifique a sua paz e saúde, criando um inferno de ansiedade em vida: “Quantos sofrimentos, preocupações e tormentos cada um procura para si; quantas noites sem dormir, para aumentar uma fortuna muitas vezes mais que suficiente!”,.
A Falsa Propriedade e a Prisão do Além-Túmulo
A base da ilusão capitalista de posse perpétua desmorona diante da realidade espiritual. O homem acredita ser dono daquilo que acumula, quando a verdade é que “tudo vem de Deus e tudo volta para Deus. Nada lhes pertence na Terra… Vocês são depositários, e não proprietários”. O indivíduo não possui, de fato, senão aquilo que pode levar deste mundo — suas aquisições morais e intelectuais —, pois todos os bens materiais e os títulos terrenos ficam inevitavelmente retidos no túmulo,.
Quando o homem passa a vida focado apenas no ganho financeiro, maquiando muitas vezes a sua avareza com o falso nome de “economia e previdência”, ele prepara para si mesmo terríveis sofrimentos no mundo espiritual. A lei divina nos alerta que “para o avarento, é ver o seu ouro ser dilapidado e não poder retê-lo”. Temos o comovente e terrível exemplo do avarento François Riquier, que, do além, sofre torturas inenarráveis de raiva ao ver seus herdeiros dividirem seu dinheiro, chegando a exclamar em desespero: “Não, eu não poderia viver sendo pobre. Preciso do meu dinheiro para viver”. Para as almas dominadas por esse vício, a ausência da matéria que idolatravam torna-se um fogo devorador da própria consciência,. Em casos ainda mais graves, como o do assassino Jacques Latour, que roubava e matava por ganância, o castigo vem por meio de visões aterrorizantes de um “ouro sujo de sangue” que o persegue incessantemente na eternidade.
O Verdadeiro Papel da Riqueza
Apesar de todas as advertências, o Espiritismo não condena o trabalho, a indústria ou o progresso material. A riqueza é, de fato, o principal meio de execução de grandes trabalhos na Terra e um poderoso elemento de progresso intelectual para a humanidade,. A verdadeira raiz do mal não está na riqueza em si, mas sim no abuso que o homem faz dela em virtude de seu livre-arbítrio. Se Deus permite que a fortuna se concentre nas mãos de alguns, é com a finalidade de que eles atuem como administradores justos e façam com que ela se expanda, gerando fecundidade, emprego e bem-estar para o todo da sociedade,,.
A Libertação do Egoísmo e o Chamado à Reflexão
Para regenerar a humanidade de suas profundas crises sistêmicas, o progresso intelectual alcançado não é suficiente; enquanto o homem for dominado pelo orgulho e pelo egoísmo, ele utilizará sua inteligência e seus conhecimentos apenas em benefício das suas paixões e dos seus interesses pessoais. Somente o progresso moral garantirá a verdadeira felicidade, derrubando as barreiras de classe e ensinando os seres humanos a se considerarem irmãos convocados a se ajudarem mutuamente, e não a viverem eternamente “às custas uns dos outros”.
Em vez de sacrificar a saúde da alma por um brilho ilusório e passageiro no banco ou no mercado, o convite que a espiritualidade nos faz é para estendermos as mãos, compreendendo que o egoísmo é a “chaga da humanidade” e o maior obstáculo à nossa felicidade,. Que possamos refletir sobre a transitoriedade dos nossos bens e compreender que aquele que dá aos pobres, e que partilha do que tem, não está perdendo nada, mas sim saldando com glória “o débito que contraiu com Deus”
